Culinária contra o desencantamento do mundo

Em razão de uma situação de contingência, a qual não cabe aqui descrever, fui levado à cozinha, com a atribuição de pilotar o fogão. Num mundo dominado por uma ideologia do trabalho — assalariado –, segundo a qual só têm valor as atividades remuneradas que visam ao lucro, a minha situação poderia ser entendida como lamentável.

Essa experiência, no entanto, foi para mim de todo gratificante. A culinária é uma manifestação cultural universal — como aliás disso se ocupou Claude Lévi-Strauss –, precisamente pelo fato de ser o meio pelo qual o ser humano se apropria de um elemento da natureza e o transforma em um produto cultural. Há, portanto, no processo de cozinhar, aquele elemento de exteriorização e de objetivação humanas mediante o trabalho, conforme proposto por Marx. Desse modo, o processo de cozinhar nos permite perceber o grau de nossa intervenção sobre o mundo sensível em, aliás, muitas de suas qualidades: a cor dos alimentos, o aroma, o sabor, a textura, etc. Isso, caros leitores, me fez sentir genuinamente um ser humano. E não apenas isso: sinto que o fato de cozinhar para outras pessoas é algo que fortalece os laços entre aqueles que compartilham a refeição.

Muito diferente, por exemplo, do que seria no caso de uma atividade remunerada mas completamente heterônoma, ou seja, determinada por um sujeito desconhecido, com uma finalidade obscura, vazia de conteúdo. Como, por exemplo, é o trabalho do operário na linha de produção clássica (apertador de porcas), ou do trabalhador de escritório (apertador de “enter”). Nesses casos o que se vê é um trabalho desprovido de significação, orientado por determinações externas, da qual a principal é o imperativo de receber um salário, por meio do qual o indivíduo poderá satisfazer suas necessidades. A intensificação desse modelo de trabalho leva ao surgimento de indivíduos cada vez mais incapazes de satisfazer suas próprias necessidades e, portanto, cada vez mais dependentes do imperativo de vender sua força de trabalho, a qual é empregada numa atividade com um baixo nível de significação em si mesma. A relação entre as pessoas torna-se progressivamente apenas funcional, isto é, me relaciono com fulano não por quem ele é, mas pela função que ele desempenha no interior de um sistema. O resultado disso é, sem dúvida, cada vez mais, uma perda de sentido — tomando de empréstimo uma expressão de Max Weber, um desencantamento do mundo.

Diante de tudo que foi dito, eu corroboro uma das sugestões que Georges Ritzer faz para conter a mcdonalização, a crescente racionalização, da sociedade: a culinária contra o desencantamento do mundo. Slow food. É certo que nem sempre haverá tempo e situações propícias para isso, mas, quando possível, recomendo fortemente esse prazer de preparar os nossos alimentos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s