Por quê o Haiti?

Ao tomar conhecimento dos terremotos que atingiram o Haiti, e de toda a tragédia que se seguiu naquele país, a primeira pergunta que me veio à mente — e acredito que também para muitas outras pessoas — foi: por quê o Haiti? Um país que já tem problemas mais que suficientes com sua miséria, a instabilidade política, as convulsões sociais e a violência; agora se vê às voltas com essa tragédia natural de tamanha proporção.

Penso que essa pergunta tem suas raízes num ideal moral de “justiça divina”, o qual nos é transmitido principalmente pelas instituições ditas religiosas. Com base nesse ideal — consciente ou inconscientemente — somos levados a questionar por quê aquele país estaria sendo alvo da ira divina, com tantas desgraças. Essa concepção, no entanto, tende a nos levar a uma postura resignada, afinal, quem somos nós para questionarmos desígnios que estão além da nossa compreensão? Pior: podemos ser levados a acreditar que aquelas pessoas merecem todo esse sofrimento.

Desse modo, deixando essa ideia de “justiça divina” de lado, acho que esse acontecimento deve, muito pelo contrário, suscitar em nós reflexões sobre a “injustiça humana”. Organismos internacionais e outros países, oferecem sua solidariedade enviando alimentos, remédios, recursos humanos e ajuda financeira — agora que o quadro do caos está completo. Até então, o Haiti era um país quase invisível — não porque não tivesse o que mostrar, mas porque ninguém queria olhar para ele. À exceção de ações pontuais, geralmente de cunho assistencialista, por parte de ONGs e organismos internacionais, o Haiti foi, desde sempre, um país marginalizado na ordem mundial. Será por que foi a primeira colônia a se tornar independente pelos braços dos negros, que, ao mesmo tempo que lutavam pela independência, também lutavam pela abolição da escravidão? Tive um professor, estudioso do Haiti, o prof. Omar Ribeiro Thomaz — que por sinal estava lá no terremoto –, o qual não exitava em afirmar que sempre houve um embargo ao Haiti, seja ele econômico, político e até mesmo cultural: ora, exemplo disso é que a Revolução haitiana, por meio da qual os antigos escravos afugentaram seus ex-colonos e constituíram um país independente, não mereceu mais que uma nota de pé de página em “A Era das Revoluções”, de Eric Hobsbawn.

Outra faceta da “injustiça humana” se torna evidente quando comparamos as cifras anunciadas para ajuda ao Haiti, oferecidas pela ONU, países desenvolvidos e até mesmo pelo Brasil, as quais somam dezenhas de milhões de dólares. Falando assim, parece uma soma expressiva. Contudo, quando comparamos com as cifras do plano deflagrado pelo governo norte-americano para salvar seus bancos da bancarrota, no auge da crise do subprime, no fim de 2008 e início de 2009, a ajuda destinada ao Haiti parece uma piada de mau gosto. O plano de salvação dos bancos consumiu recursos da ordem de um trilhão de dólares (US$ 1.000.000.000.000,00) — isso mesmo, doze “zeros” após o “um”. Sejamos otimistas e vamos supor que o total da ajuda financeira ao Haiti chegue a cem milhões de dólares (US$ 100.000.000,00) — oito “zeros”, certo? Comparando essas cifras, isso significa que o plano de salvação dos bancos poderia socorrer dez mil (10.000) tragédias como essa. Não estou colocando em questão a necessidade de se salvar os bancos naquela situação específica. Mas que essa diferença é, no mínimo, incômoda, também não questiono. Infelizmente, parece que a preservação do capital é mais importante que a preservação da vida.

Portanto, essa questão — por quê o Haiti? — que aparentemente se voltava para uma divindade, agora se volta para cada um de nós. Por quê permitimos que aquele país chegasse a ficar tão pobre, tão vulnerável a um desastre natural como este? Um terremoto, uma enchente, um tsunami, são todas tragédias que o homem não pode evitar, mas pode, sem dúvida minimizar seus efeitos. Veja o exemplo do Japão, frequentemente assolado por terremotos, mas que desenvolveu tecnologia de construção civil para suportar melhor esses abalos. De todo modo, é certo — pelo menos assim quero acreditar — que essa situação no Haiti não foi fruto da vontade expressa de ninguém, mas antes da nossa omissão diante da lógica do capital — da lógica da mercadoria –, segundo a qual quem não produz, quem não se insere no mercado, não interessa. Agora, talvez os haitianos interessem ao capital, pois agora podem virar mercadoria, vendendo notícias sobre a tragédia. Diante de uma tragédia dessas e das questões que ela nos coloca, cabe-nos ainda a possibilidade de adotar uma nova postura perante a nossa realidade, priorizando a vida, o ser humano. Como dizia o slogan do Fórum Social Mundial: “Um outro mundo não só é possível, mas é necessário”.

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