A felicidade conjugal – Leon Tolstói

Hoje terminei de ler a novela “A felicidade conjugal”, de Leon Tolstói. Publicada em 1859, numa fase mais inicial da carreira do
escritor, exalta a simplicidade da vida no campo. Apesar desse caráter bucólico, a novela provoca uma interessante reflexão.

O enredo, de maneira resumida, trata da história de Mária Aleksándrovna, uma jovem de 17 anos, que acaba se apaixonando por seu
tutor, Sierguiéi Mikháilitch, um homem de uns 37 anos, que fora amigo do falecido pai da jovem. O temperamento da jovem, filha
da aristocracia russa, era calmo e humilde. O tutor, por sua vez, também era um homem pacato. Desse relacionamento surge um
amor recíproco, selado por um casamento.

Os primeiros meses após o casamento foram de grande felicidade, numa vida regida pelas tradições e pela rotina monótona
do campo. Com o passar do tempo, entretanto, Mária começa a se inquietar com a monotonia da vida campestre e acaba convencendo
o marido a providenciar a mudança do casal para a cidade.

A vida na cidade mudou completamente a vida do casal. A jovem esposa estava cada vez mais deslumbrada com a vida em sociedade,
os bailes, a atenção que lhe devotavam; ao passo que o marido se mostrava cada vez mais insatisfeito com esse estado de coisas,
ainda que se resignasse diante desse distanciamento daquela felicidade inicial, oriunda da vida simples do campo. Essa mudança
marca também um distanciamento do casal, progressivamente incapaz de experimentar o amor e a confiança que depositavam um no
outro logo no início do casamento.

O ponto máximo desse distanciamento é quando a jovem é beijada — no rosto — por um outro homem e subitamente é tomada
por um sentimento de arrependimento e culpa. O casal continua distante até que por contingências do destino vão morar por um
tempo na casa de Mária, onde tudo começou. O lugar, além de evocar lembranças de um tempo bom, permite uma reaproximação do casal.
Mária confessa o desejo de deixar a vida na cidade para trás, e voltar a levar a vida de antes. O marido, homem sábio e maduro,
pondera que não será possível ser como antes, porém é possível começar uma nova vida, voltada para a criação dos filhos. E assim
termina a novela: com Maria reconhecendo o surgimento de um novo tipo de amor, muito mais um companheirismo do que romance, visando
à manutenção da família, tirando dessa vida simples um novo tipo de felicidade.

Parece uma história tola, mas vale a pena refletir: por que, mesmo sabendo que a felicidade está nas coisas simples, nos entregamos
a ambições desmedidas? Talvez seja porque tenhamos de experimentar esse fato por nós mesmos, como diz essa bela passagem da novela:

“[Mária]: […] — Por que me permitiste viver no mundo, se ele te parecia tão pernicioso que deixaste de me amar por
causa dele?
[…]
[Sierguiéi]: […] — Todos nós, e particularmente vós outras, mulheres, devemos viver sozinhos todo o absurdo da existência,
a fim de voltar à própria vida; e não se pode crer em outra coisa. Ainda estavas longe de ter vivido então todo o absurdo
simpático e encantador com que eu me extasiava em ti; e eu te deixei acabar de vivê-lo e senti não ter o direito de te
constranger, embora para mim o tempo já tivesse passado havia muito.”

Diante dessas palavras, parece que às vezes temos de colocar a perder o que temos para que possamos lhe dar o devido valor.
É duro, mas nesse caso a ficção é a própria realidade. Por isso mesmo, não deixe de ler essa novela de Tolstói você mesmo.

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