Felicidade não tem fim, tristeza sim

Tristeza não tem fim; felicidade sim?

Ultimamente, tenho refletido muito sobre essa questão — a qual em sua origem, na letra da canção, era uma afirmação. Mas questiono alguns pontos:

I. Se tristeza não tem fim, ao menos deve ter um começo: numa concepção pessimista, posso assumir que a tristeza tem sua gênese no
mesmo momento de nossa gênese — algo intrínseco à condição humana. Ou então, deve-se assumir que a tristeza sempre existiu, desde
o início dos tempos, seja lá quando foi isso…

II. Se felicidade tem fim, tem que ter algum começo: e qual seria, precisamente, o momento da gênese da felicidade? Um momento de
êxtase, de prazer, de realização, etc? Há também a possibilidade de que ela tenha existido desde sempre.

Dessas duas proposições, penso que algo fundamental deve ser esclarecido: tristeza e felicidade são mutuamente excludentes?
Isto é, onde houver uma a outra não poderá existir?

Se assumirmos que sim, são mutuamente excludentes, então temos uma contradição: se a tristeza não tem fim, não será possível que a
felicidade tenha um começo; e se esta última não tem um começo, consequentemente nem poderá ter fim. Neste caso, poderíamos dizer
que tristeza não tem fim; felicidade nem começo tem.

Por outro lado, se entendermos que em certos momentos felicidade e tristeza podem coexistir, então temos uma situação incômoda: se tristeza não tem fim, a felicidade pode coexistir com a primeira, sendo que esta última tem fim, então, a felicidade não é mais que
ilusão. É-se feliz num substrato de tristeza, ao qual cedo ou tarde se retornará.

Portanto, violando a licença poética e usando minha “licença sofística”, digo: “Felicidade não existe; por isso não tem fim”; ou,
até mesmo: “Felicidade não tem fim; tristeza sim”. Isso mesmo. Explico essa última parte: a tristeza pode ser infinita num ponto
de vista transcendental, mas no dia em que o sujeito da tristeza não mais existir — e representá-la, senti-la — fará sentido falar
de sua existência? Então, tomo a liberdade — mais uma vez a licença sofística — de confundir o fim do sujeito da tristeza — sua
morte — com o próprio fim da tristeza.

P.S.: Perdoem-me eventuais leitores por essa vã discussão, mas, de vez em quando, sou acometido por um pessimismo meio agudo.
Espero que não se zanguem com esse sofisma. Não deem ouvidos a ele. Acho que foi apenas um desabafo travestido de falsa
filosofia. Por isso, não percam tempo! E viva a poesia! Pois só ela é capaz de dar um sentido a este mundo.

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Uma resposta para “Felicidade não tem fim, tristeza sim

  1. Não é pessimismo é realismo.
    Adoro a maneira como vez as coisas.

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