Febeapá

Estava na biblioteca, numa luta com um livro do Anthony Giddens, lendo um parágrafo entre um bocejo e outro. Com a leitura prejudicada pelo sono, resolvi dar uma olhada na estante que estava logo atrás de mim. Um nome chamou minha atenção: Stanislaw Ponte Preta. Eu nunca me esqueço de um texto dele, da velha contrabandista, que li no primário. Era muito engraçado. Resolvi pegar o livro da estante. Chamava-se Febeapá 1 — Primeiro Festival de Besteira que Assola o País.

O livro foi escrito em 1966, bem entre o golpe militar (1964) e o AI-5 (1968). Desse modo, são frequentes as críticas aos militares. O livro se baseia nas “pérolas” dos políticos e homens públicos, coletadas entre os anos de 1965 e 1966. A julgar pelo que aconteceu no ano passado — como o caso da minissaia na Uniban; os panetones do Arruda; e a frase infeliz do Boris Casoy sobre os garis –, pode-se dizer que o Febeapá continua correndo solto!

Reproduzo abaixo alguns casos exemplares do Primeiro Festival. (Stanislaw Ponte Preta. Primeiro Festival de Besteira que Assola o País – Febeapá 1. São Paulo: Círculo do Livro)

Febeapá 1

Febeapá 1

Juiz elogiado:

“Abril, mês que marcava o primeiro aniversário da ‘redentora’, marcou também uma bruta espinafração do Juiz Whitaker da Cunha no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, que enviara seis ofícios do magistrado e, em todos os seis, chamava-o de ‘meretríssimo’. Na sua bronca o juiz dizia que ‘meritíssimo’ vem de mérito e ‘meretríssimo’ vem de uma coisa sem mérito nenhum.” (p. 12)

Matemática perniciosa:

“Em Fortaleza um colunista político, irritado com as bandalheiras dos vereadores em nome da liberdade, escreveu em sua coluna que metade da Câmara era composta de ladrões. No dia seguinte saiu fumacinha e fizeram ameaças ao colunista se ele não desmentisse. Ele, em vez de desmentir, ratificou e ninguém percebeu, pois deu uma segunda notícia, dizendo que havia uma metade na Câmara de Veradores que não era composta de ladrões.” (p. 13)

As pétreas narinas alencarianas foram poupadas (narinas alencarianas, essa foi boa, kkkk):

“Nas prefeituras municipais é que o Festival se espraiava com maior desembaraço: o Prefeito Tassara Moreira, de Friburgo (RJ), inaugurava um bordel na cidade ‘para incentivar o turismo’, enquanto o prefeito de Fortaleza, Murilo Borges, atendia ao apelo do Instituto Histórico cearense e suspendia a construção de um mictório público em frente à estátua de José de Alencar, na praça do mesmo nome. O instituto tinha classificado de ‘incontinência histórica’ a instalação de um sanitário ali, justamente quando se comemora o centenário de Iracema. Agora o mictório está sendo construído atrás da estátuta e o instituto agradeceu à prefeitura ressaltando que as ‘pétreas narinas alencarianas não serão mais molestadas’. Foi uma solução honrosa, sem dúvida, e agora, se alguém ficar aperreado, com se diz no Ceará, que vá atrás da estátua.” (p. 14-15)

É isso aí minha gente:

“O economista Glycon de Paiva pronunciava a seguinte frase, durante a possse do Sr. Harold Polland no Conselho Nacional de Economia: ‘O Brasil é um país com problemas urgentes, ingentes, mas sem gente’. Segundo tia Zulmira, ‘essa frase que parece inteligente é justamente de gente indigente metida a dirigente’.” (p. 19)

E a minissaia já causava polêmica, muito antes da Geisy Arruda:

“A minissaia era lançada no Rio e execrada em Belo Horizonte, onde o delegado de Costumes (inclusive costumes femininos) declarava aos jornais que prenderia o costureiro francês Pierre Cardin (bicharoca parisiense responsável pelo referido lançamento), caso aparecesse na capital mineira ‘para dar espetáculos obscenos, com seus vestidos decotados e saias curtas’. E acrescentava furioso: ‘A tradição moral e pudor dos mineiros será preservada para sempre’. Toda essa cocorocada iria influenciar um deputado estadual de lá — Lourival Pereira da Silva –, que fez um discurso na Câmara sobre o tema ‘Ninguém levantará a saia da Mulher Mineira’.” (p. 20)

Pois é. De lá pra cá o Brasil pode ter mudado em algumas coisas, mas o Febeapá continua o mesmo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s