Velhas novas notícias

Mal se inicia 2010 e já começam as tragédias: deslizamento de terra em Angra dos Reis, inundação em São Luiz do Paraitinga, Guararema…

De certa forma é uma fatalidade, um acontecimento fortuito — fruto de chuvas que ocorrem num volume muito maior do que o esperado, do que seria normal.

Por outro lado, é a materialização de uma tragédia anunciada, a qual é ignorada até a ocorrência do seu desfecho trágico — ou ninguém percebeu a ocupação desordenada de encostas, o desmatamento das matas ciliares, a impermeabilização do solo, o aquecimento global?

O fato é que, como dizia Maquiavel, a vida humana é dirigida pela virtude e pela fortuna. Assim, apesar dos imponderáveis da vida, o homem virtuoso deve adotar uma conduta prudente a fim de tentar minimizar os efeitos negativos de uma má fortuna.

Desse modo, por um lado, só podemos lamentar pela infelicidade dos acontecimentos. O ser humano deve abandonar sua soberba e lembrar de que ele é apenas mais um ser vivo neste planeta, dissipando a ilusão de domínio sobre a natureza — na verdade, o homem está incluído no domínio da natureza.

Por outro lado, não podemos deixar de apontar causas que potencializaram essas tragédias, a fim de evitar que todo ano tenhamos que receber essas velhas novas notícias.

A grande dificuldade é de que tais causas sejam devidamente identificadas. Provavelmente, o mais fácil será imputar a culpa às pessoas que ocupam as áreas de encosta — como se esse fosse seu desejo. Outros culparão a pobreza e a ignorância dessas pessoas — relacionando  essa condição socioeconômica com o baixo nível de instrução, elevado nº de filhos, até mesmo com uma suposta indolência e falta de ambição dessas pessoas. Ainda assim, estaremos distantes das verdadeiras causas.

Até o momento não ouvi ninguém apontar para o problema da especulação imobiliária — ou seja, incluir o solo e outros recursos naturais na lógica da mercadoria. Por meio desse mecanismo de valorização, o acesso a áreas mais seguras e à infraestrutura necessária torna-se um privilégio daqueles que por ele podem pagar. Aos pobres, resta buscar áreas ainda apropriadas pelo mercado imobiliário, ou então áreas abandonadas, e realizar ocupações à margem da lei e de qualquer segurança para os moradores.

Além desse problema da especulação imobiliária, pouco se tem discutido sobre o nosso modelo de desenvolvimento. Apesar da atenção dada ao problema do aquecimento global, principalmente durante a realização da COP-15, a abordagem ao problema foi voltada apenas para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa — ou seja, não se pretende mudar nada, apenas reduzir o que já se tem. Mas essas tragédias parecem nos alertar que é necessária uma nova postura diante da natureza. E para adotar essa nova postura diante da natureza, precisamos que os seres humanos adotem uma postura diferente dentro da própria sociedade. Se a visão mercantilista é capaz de tratar uma massa de seres humanos como dispensável — porque incapazes de vender sua força de trabalho e, desse modo, se inserirem no mercado –, de que forma podemos imaginar que a natureza seja vista? Como mera mercadoria.

Portanto, apesar de serem de certo modo inevitáveis, essas tragédias poderiam ser menores. Para tanto, é urgente uma nova postura diante da natureza e dentro da própria sociedade. A vida e a dignidade das pessoas não podem estar sujeitas a interesses mesquinhos. O mercado deve funcionar como um meio de alocar os recursos de uma sociedade e não como um fim em si mesmo. Somente no dia em que conseguirmos readequar os fins e os meios é que seremos capazes de fazer parte da natureza e não nos iludirmos com um falso e pernicioso domínio.

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2 Respostas para “Velhas novas notícias

  1. lucianorezende

    Infelizmente há previsão de que as mudanças climáticas irão aumentar a força e frequência de tempestades.
    http://lucianorezende.wordpress.com/2010/01/10/brasil-gastou-10-vezes-mais-com-tragedias-do-que-com-prevencao/

    • Realmente, Luciano. As previsões não são nada animadoras. Concordo com sua opinião de que o foco deve estar voltado para a prevenção desses desastres — embora em alguns casos as tragédias sejam inevitáveis, pelo menos seu impacto poderia ser reduzido.

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