O lixo da sociedade e a sociedade do lixo

Estava ouvindo a rádio CBN, quando o comentarista André Trigueiro falou — além das tragédias, é claro — de sua tristeza com o lixo gerado nas grandes festas de reveillon. Toneladas de lixo jogadas na praia e nas ruas, objetos cortantes, um verdadeiro descaso com o espaço público — e com o meio ambiente. O comentarista e a apresentadora discutiram sobre esse comportamento, apontando para as consequências nocivas — as enchentes –, e tentando encontrar uma explicação para essa conduta. A apresentadora fez uma analogia interessante: a pessoa que joga lixo na rua, em princípio, age como o político corrupto que esconde dinheiro nas meias — ou seja, trata o público com descaso, em detrimento do interesse privado e imediato.

Essa reflexão se articula com uma declaração lamentável, em off, do apresentador Boris Cas0y, segundo a qual ele demonstra todo seu desprezo por uma dupla de garis que desejava um feliz ano novo numa mensagem da Bandeirantes.

Boris Casoy pisando na bola

O que você achou desse pedido de desculpas?

Apesar de um pedido de desculpas protocolar na edição do dia seguinte, a declaração — além de retirar a “máscara” do apresentador — revelou um preconceito arraigado, muito próprio de nossa sociedade, de desprezar as pessoas num “nível inferior”. O apresentador falou que os lixeiros estavam “no mais baixo da escala do trabalho” — desse modo, estando no mais baixo, como eles poderiam se atrever a desejar felicidades a quem quer que fosse?

O que é paradoxal é o fato de que vivemos numa sociedade de consumo e, portanto, numa sociedade do lixo, já que tudo que é consumido vira lixo. Pior: produtos são concebidos dentro de um esquema de obsolescência programada; devem ser descartados o mais rápido possível, a fim de não impedir o funcionamento da roda da produção e do consumo. O interessante é que a produção social é apropriada privadamente e depois vendida; o lixo é gerado por agentes privados, em grande parte, e depois transformado em problema público. E, não fosse uma sociedade de consumo, não teríamos emissoras privadas de televisão, já que não haveria publicidade suficiente para sustentá-las — por tabela, não haveria âncoras como o Sr. Boris Casoy. Por outro lado, a julgar pelo mau hábito de grande parte das pessoas, de jogar lixo em vias públicas, como ficou evidente nas festas de ano novo, nossas ruas ficariam imundas não fossem os heróicos garis — que fazem seus os problemas da má educação alheia. Portanto, acho que o Sr. Boris Casoy não deveria se limitar a esse pedido de desculpas meramente protocolar aos garis. Deveria, sim, agradecer-lhes por tornar suportável — e possível — nossa vida na sociedade do lixo.

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