Por que participar da greve geral em 28/04?

Quando se fala em lutar, fala-se da possibilidade de discordar e agir contra a forma como as coisas são: não se calar diante da injustiça, não se dobrar à opressão, não aceitar como natural a desigualdade.

Graças às lutas de trabalhador@s de todo o mundo, ao longo de séculos e enfrentando todo tipo de repressão, podemos usufruir do descanso semanal remunerado, férias, 13º salário, licença maternidade e de uma série de direitos que foram conquistados.

Nenhum desses direitos foi concedido pelo empresariado. Ora, se dependesse da disposição patronal, a classe trabalhadora continuaria na situação miserável da época da Revolução Industrial.

Prova disso é que são os capitalistas os grandes idealizadores e patrocinadores das reformas propostas pelo atual governo para reduzir a pó os direitos d@s trabalhador@s brasileir@s: a Reforma da Previdência, a Reforma Trabalhista e a Terceirização irrestrita.

Sob o pretexto de tirar o país da crise, o que as tais reformas pretendem, de fato, é retirar direitos da classe trabalhadora e submetê-la a uma exploração ainda mais brutal, instalando um verdadeiro caos social.

É isso o que queremos para nós e para as futuras gerações?

Se você é contra essas reformas, que beneficiam apenas os setores sociais mais privilegiados; que estão sendo propostas e aprovadas sem um amplo diálogo com a sociedade; e que colocam em risco o futuro da nação, chegou a hora de ir à luta.

Portanto, em defesa dos direitos sociais e de um país mais justo, junte-se na construção da Greve Geral neste dia 28 de abril!

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Uma palavra sobre as delações da Odebrecht et al

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O que não se pode perder de vista é: o esquema de propinas que agora é revelado pelas delações da Odebrecht, no qual as grandes empreiteiras eram apenas alguns dos agentes corruptores, é simplesmente a forma pela qual se manifestou a captura do poder político pelo poder econômico na Nova República.

Não devemos nos enganar achando que, ao combater essa modalidade de sequestro da soberania popular, esse processo não esteja ocorrendo de outras formas.

Hoje em dia, bastam alguns holofotes, a “opinião de especialistas” e uma pitada de manipulação da opinião pública para se obter, por exemplo, sentenças judiciais favoráveis ao poder econômico.

Esse novo modelo tem a vantagem de os quadros da “juristocracia” não estarem sujeitos ao escrutínio do voto popular a cada 4 anos, além de a mídia de massas estar concentrada nas mãos de meia dúzia de famílias.

Não estou aqui defendendo os membros do Executivo e parlamentares envolvidos em corrupção, mas advertindo que o discurso de criminalização da política só favorece o atual processo de captura do poder político pelo poder econômico.

É preciso separar o joio do trigo, e lutar não pelo fim das formas existentes de representação política, mas sim pelo aprofundamento da democracia.

A classe que vive do trabalho –dos outros

“Quem paga a banda escolhe a música”, diz o ditado.

Por analogia, quem enche os cofres da grande mídia faz o que? Coloca Mick Jagger na capa da Exame, pra convencer você que trabalhar até a velhice é para os “vencedores”. Genial!

Só que não.

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A capacidade de aceitar versões distorcidas da realidade é inversamente proporcional ao grau de periculosidade dessa realidade.

Todo mundo já percebeu que a possibilidade de se aposentar, mesmo que em um futuro longínquo, pode se transformar em nada mais que uma doce ilusão.

Assim como antigos sonhos, cultivados num imaginário de classe média, podem virar pó: ter um emprego estável, uma casa própria, constituir família, ver os filhos se formando na universidade, etc.

A política de terra arrasada promovida pelo projeto neoliberal do governo golpista –-também conhecido como “Ponte para o Futuro” ou “a pinguela que temos pra hoje”, conforme o gosto do freguês– veio para colocar o país numa máquina do tempo, em ritmo acelerado rumo ao passado.

Estamos retrocedendo tão rápido que avanços civilizatórios como a legislação trabalhista e o sistema de previdência e seguridade social correm sério risco de virarem peça de museu.

Tudo isso em nome da Santíssima Trindade. “O Pai, o Filho e o Espírito Santo”, certo? Não. Apesar de pautas conservadoras de cunho religioso tomarem cada vez mais a agenda pública, a divindade que exige insaciavelmente o sangue do povo brasileiro é outra, o deus-mercado, cuja Santíssima Trindade é: metas de inflação, superávit primário e câmbio flutuante.

Os sacerdotes –hoje chamados economistas–, intérpretes dos humores do deus-mercado, já nos mostraram a revelação para a salvação nacional: para restabelecer a confiança, cortem tudo! Cortem programas sociais, investimentos em ciência e tecnologia, verbas para a saúde e educação, privatizem, entreguem o pré-sal… tudo em nome do santo “equilíbrio das contas públicas” –-também conhecido como “vai sobrar dinheiro para pagar os juros da dívida pública”.

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Montagem: Sensacionalista

A capacidade de aceitar versões distorcidas da realidade é inversamente proporcional ao grau de ameaça dessa realidade.

As pessoas estão vendo a água subir, há muito passou pela cintura, está chegando no pescoço. E a “fada da confiança” não aparece. E as pessoas estão perdendo seus empregos. E o país está perdendo a esperança.

Chega a ser ridícula essa capa da Exame com o Mick Jagger. A quem eles pensam que enganam? Será que acham mesmo que vão conter a fúria do povo trabalhador, em vias de ser expropriado do direito à aposentadoria, um dos poucos consolos para uma vida marcada pela exploração? Evidentemente, só conseguirão convencer aqueles já convertidos ao culto do deus-mercado.

Mas essa piada de mau gosto tem seu mérito: o de demonstrar cabalmente que, no mundo real, existem interesses conflitantes. Ou, dizendo de maneira mais clara, há uma luta de classes.

De um lado, a classe que vive do seu trabalho, tendo sua dignidade confiscada. De outro, a classe que vive do trabalho dos outros, apropriando-se da cidadania, dos sonhos, do futuro, enfim, da humanidade da outra classe.

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A capacidade de aceitar versões distorcidas da realidade é inversamente proporcional ao grau de crueldade dessa realidade.

O Mick Jagger da capa da Exame só faz sentido para a classe que vive do trabalho –dos outros. Para essa classe, o trabalho pode muito bem se mostrar como uma atividade prazerosa e fonte de realização, suportável até o fim de seus dias.

Para a classe que vive do seu próprio trabalho e, de quebra, sustenta a outra classe, não há como evitar: o trabalho é sofrimento, porque submetido à exploração –um fardo pesado a ser carregado.

Pelo menos, isso agora fica claro. Se não há aposentadoria, a classe trabalhadora não tem nada a perder, a não ser os seus grilhões.

Nós, Daniel Blake

Assistir ao filme “Eu, Daniel Blake” nos evoca os mais diversos sentimentos: identificação, piedade, tristeza, indignação, acolhimento, esperança.

A película do diretor Ken Loach, vencedora da Palma de Ouro em Cannes, conta a história de pessoas comuns, gente que faz parte dos 99%, quase sempre ausentes de tela grande, embora seja a maioria esmagadora da população.

O cinema, meio por excelência de difusão da versão hollywoodiana de felicidade às massas, encontra em “Daniel Blake” um contraponto à narrativa e personagens hegemônicos.

Loach trata do drama de um viúvo impossibilitado de trabalhar em decorrência de um ataque cardíaco, e suas peregrinações pelos labirintos da burocracia, na tentativa de garantir seu direito a um auxílio-doença. E, durante seu calvário, o protagonista encontra Katie, uma jovem mãe que luta para criar sozinha duas crianças. Daniel, Katie e as crianças representam milhões de pessoas que ficam à margem da sociedade, desprovidas dos meios de viver com dignidade (faltam empregos, seguridade social, um teto para morar e até mesmo comida), à medida que o capitalismo em sua fase neoliberal promove o desmanche do Estado de bem-estar social (o drama se passa na Inglaterra), cinicamente responsabilizando os indivíduos por sua condição miserável.

Se por um lado o filme denuncia a humilhação a que são submetidos homens e mulheres marginalizados pelo sistema (o atendimento nada humano dos call centers, uma burocracia sem sentido, as intermináveis filas dos bancos de alimentos); por outro lado ele exalta virtudes humanas tão pouco valorizadas em uma sociedade individualista e ultracompetitiva: a solidariedade, a identificação com o sofrimento alheio, o compartilhamento do pouco que se tem –mesmo quando isso é quase nada.

Entre a indignação e a esperança, “Eu, Daniel Blake” revela nossos dramas nesses tempos de incerteza. Num mundo em que só há espaço para os vencedores, somos todos potenciais perdedores. Porém, um outro mundo é possível, quando tomarmos consciência de nossa força e nossa dignidade. Nós, os 99%. Nós, Daniel Blake.

Prisioneiros da barbárie

“Mede-se o grau de civilidade de um país pela forma como trata os presos”

F. Dostoiévski

Quem pensava ter sobrevivido a 2016, não fazia ideia do que 2017 nos reservava. Em menos de uma semana, duas chacinas nas masmorras do medieval sistema carcerário brasileiro.

A carnificina expõe nossas vísceras.

Há quem celebre o espetáculo de barbárie. Aplaude o “cidadão de bem”, entoando o bordão “bandido bom é bandido morto”. Nossa herança escravocrata nos assombra.

Por outro lado, há quem cinicamente tente aplacar sua consciência, alegando que foram os presos que se aniquilaram mutuamente. Ora, como esperar que se tratassem como seres humanos, quando a sociedade os trata como bestas, entulhadas em depósitos de gente dispensável, relegadas ao esquecimento?

O fato é que a barbárie nos iguala. Nos nivela por baixo. Não importa se estamos do lado de cá das grades, integramos uma comunidade que despreza abertamente a vida humana.

Talvez jamais tenhamos sido civilizados nesses tristes trópicos. Nem faz muito tempo, podíamos nos iludir com uma embrionária civilização, sendo construída sob a égide da Constituição Cidadã de 1988. Mas, com o golpe, a ilusão veio abaixo. E nos deparamos com nossa triste realidade: somos prisioneiros da barbárie. Conseguiremos nos livrar dessa prisão?

Ipê amarelo

Fina e delicada

flutuando no ar a flor

do ipê amarelo.

Ipê-Amarelo-da-Serra. Créditos da foto: rolvr_comp (Flickr/CC)

Ipê-Amarelo-da-Serra. Créditos da foto: rolvr_comp (Flickr/CC)

Rubem Alves: ostra de muitas pérolas

 

Rubem Alves. Foto: Instituto Rubem Alves

Rubem Alves. Foto: Instituto Rubem Alves

Ontem, recebi com pesar e surpresa a notícia da morte de Rubem Alves, escritor, educador, poeta, filósofo e tantas outras coisas.

Não o conheci pessoalmente, apenas pelos seus escritos e entrevistas. Mas foi o suficiente para me sentir cativado. Seja pela sua fala, ao mesmo tempo mansa e apaixonada pelos assuntos de que se ocupava. Seja pelo jeito singelo de tratar de questões tão profundas e complexas: Deus, a vida, religião, política, educação… tudo assumia uma impressionante simplicidade nas suas metáforas.

Uma das mais conhecidas é a da ostra e das pérolas. Justamente aquela que dá nome a um de seus livros mais populares: Ostra feliz não faz pérola. Segundo essa metáfora, uma ostra feliz, isto é, que não tem nada que a incomode, não produz pérolas. Pois as pérolas são produzidas por uma espécie de mecanismo de defesa, que procura envolver um corpo estranho que se aloja na ostra. Portanto, assim como as ostras, as pessoas sem algo que as incomode não são capazes de produzir uma pérola – uma obra de arte, um escrito, um pensamento, uma música, enfim, uma obra por meio da qual deixe sua marca. Para produzir essa obra é preciso que o sujeito tenha algum tipo de desconforto, que não é necessariamente um sofrimento doloroso, mas pode ser uma curiosidade inquietante.

E, sem dúvida, Rubem foi dessas ostras que produziram muitas pérolas. Ele soube transformar suas inquietações numa obra vasta e profunda – 160 títulos, publicados em 12 países –, que nos deixam muitos ensinamentos. Entre eles, a de que a morte não é algo a se temer: “Eu não tenho medo de morrer… Só tenho pena. A vida é tão boa…”, dizia ele.

Então, é uma pena que já tenha ido, Rubem. Mas você nos deixou muitas pérolas e, por isso, fica aqui minha gratidão: muito obrigado!

Entrevista de Rubem Alves a Antonio Abujamra no programa “Provocações”, da TV Cultura

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 Há umas semanas atrás, andando no Parque do Taquaral, me deparei com uma exposição inspirada nos textos de Rubem Alves.

Abaixo, algumas fotos da exposição e dos textos:

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